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Pesquisadora acredita que o desenvolvimento de habilidades científicas é essencial para o ensino e aponta o professor como componente definidor no crescimento do aluno.

Por: Rafael Foltram

Publicado em 22/02/2011 | Atualizado em 22/02/2011

Quando o professor aprende

Sala repleta de professores-alunos: programa desenvolvido por educadora israelense afirma que é hora de ensinar o professor – novamente – a ensinar. (foto: Leif/ CC-BY-NC-ND 2.0)

Por ora, esqueça o aluno. Quem realmente precisa aprender é o professor. Ao menos, é o que acredita a educadora e pesquisadora israelense Zahava Scherz, diretora de educação científica do Instituto Weizmann, em Israel. 

Ela esteve no Brasil para ministrar uma palestra na Universidade de São Paulo e lecionar em um workshop no colégio judaico Renascença, também na capital paulista.

Em ambos os compromissos, o tema foi o projeto Learning Skills for Science (Habilidades para a Compreensão de Ciências, em português), ou, apenas, LSS. O método de ensino defende um aprendizado de ciência com mais aulas práticas, atividades em grupo, competições e, principalmente, a inclusão do aluno como elemento ativo desse processo.

Com o programa implantado em países como Cingapura, Israel, Inglaterra e Brasil, Scherz afirma com extrema segurança a ideia de que o ensino e o aprendizado devem ser divertidos e prazerosos. Segundo ela, para tudo isso dar certo, o professor deve aprender – novamente – a ensinar ciências.

Leia abaixo a conversa que a CH On-line teve com Scherz no final de janeiro, quando ela esteve em São Paulo.

CH On-line: Como você se interessou pela educação científica e em ensinar professores a ensinar ciência?

Zahava Scherz: Fiz minhas duas primeiras graduações em química e, no começo, trabalhei como professora. Gostava muito disso. Fui professora de química e decidi, depois do meu mestrado, que faria meu PhD em educação de ciência na Universidade Hebraica de Israel.

Fiz isso sempre trabalhando como professora. Quis descobrir como aprender. Depois cursei um pós-doutorado em educação científica e me interessei também pelo uso de computadores. 

“Nada pode acontecer sem os professores. A chave do sucesso e da implantação de novos projetos é o professor”

Entrei no Instituto Weizmann de Ciência e comecei a desenvolver materiais para o currículo das matérias com o LSS. Logo percebi que nada pode acontecer sem os professores. A chave do sucesso e da implantação de novos projetos é o professor. Então grande parte do nosso desenvolvimento no ensino de ciência é baseado em quem dá as aulas.

Deve haver pesquisa do currículo, desenvolvimento do currículo, treinamento do professor e implantação de novas situações. Tudo isso deve ocorrer conjuntamente e um não pode existir sem o outro.

Depois me tornei diretora de ciência e tecnologia do Centro Nacional de Professores, em Israel. O trabalho desse centro é desenvolver os chamados ‘professores líderes’. Pessoas que treinamos para ensinar outros professores a implementar as mudanças estratégicas e curriculares.

Você sentiu a necessidade de trazer novas metodologias para o ensino de ciência? Quais são os problemas com o ensino tradicional dessa disciplina?

Não é que nós resolvemos todos os problemas, problemas são sempre problemas. Nosso cliente muda o tempo todo. Temos hoje novas crianças nascidas em um novo ambiente. O mundo mudou, a ciência mudou e nós tivemos que mudar.

“O mundo mudou, a ciência mudou e nós tivemos que mudar”

Tivemos que mudar o currículo e desenvolver os professores. É um processo contínuo, não é uma revolução, mas uma evolução. Mas sempre há espaço para o desenvolvimento dos docentes. Não é algo que você possa fazer, terminar e começar outro projeto. Cada projeto feito deve ser acompanhado pelo desenvolvimento dos professores, já que eles são nossos embaixadores para as crianças.

Nada pode ser feito sem eles. Pode haver algum aprendizado independente, o computador, mas o professor sempre estará lá.

Quais são os maiores erros no ensino de ciência nas escolas?

Há tantas teses escritas sobre isso. Não poderia te dizer qual é o maior erro. O fato é que existem muitas pedagogias e algumas são melhores do que outras. O que a gente faz e foi convidado a fazer no Brasil é o LSS, que é “como ensinar e aprender ciência”. E a ideia principal é que a ciência não é apenas sobre conteúdo, mas sobre habilidades de alta ordem. Ou seja, a indagação, resolução de problemas, busca e o aprendizado. O que fazemos é mostrar como aprender. Isso é importante especialmente em ciências, onde as ideias mudam o tempo todo e o professor não pode enjaular o conhecimento.

É muito importante fazer isso explicitamente e acredito que o professor precisa explicar claramente. Ninguém leva seu filho a uma piscina pela primeira vez e espera que ele nade de repente. Ele não nadará. Ele pode flutuar, mas a maioria irá afundar. Então temos que ensinar a nadar, temos que ensinar a aprender.

Uma parte importante do programa é o desenvolvimento de habilidades. Como você define o termo "habilidade"?

Estamos falando de habilidades de alta ordem e se pode dizer que há várias dessas habilidades na ciência, que são as habilidades de investigar, procurar pela resposta, pensar criticamente, resolver um problema e, apenas aí, entra a habilidade e a possibilidade de aprender.

“Ninguém leva seu filho a uma piscina pela primeira vez e espera que ele nade de repente. Ele não nadará”

Em relação à habilidade para o aprendizado, subdividimos em algumas áreas-chave: obter e reter informação, escutar palestras científicas, assistir a filmes, ler criticamente livros de ciência e artigos científicos, escrever um relatório, escrever um artigo científico e representar e apresentar dados.

Nessa representação dos dados, lida-se com o visual, com gráficos, esquemas e ilustrações, que são muito importantes e requerem habilidades muito especiais.

Desenvolvemos metodologias de como ensinar essas habilidades.

Você acha interessante que os professores do ensino fundamental e do médio façam pós-graduação, cultivem uma formação mais generalista ou se concentrem em novas formas de ensinar?

Tudo isso! O professor deve se considerar um aluno para o resto da vida. Deve se desenvolver dentro da área que leciona, em outras disciplinas e também em pedagogia. Não é uma situação de escolha eliminatória, mas de juntar esses fatores.

Qual é a importância das aulas práticas? Qual deve ser a proporção entre elas e as aulas teóricas?

São imprescindíveis. O ensino de ciência é impossível sem laboratórios. É uma importante parte do aprendizado e pessoalmente acredito que todas as aulas de ciências devem ocorrer no laboratório, para que sempre que seja necessário fazer um experimento ou algo do tipo se tenha tudo à mão.

Existem diferenças no ensino de ciências e outras matérias? Por que algumas matérias assustam mais os estudantes?

A maioria das técnicas pode ser utilizada em praticamente todas as matérias. Mas há algumas habilidades que serão requeridas para a ciência em especial. A ideia é integrar o aprendizado das habilidades com o conteúdo científico e isso pode ser aplicado em qualquer área, mas nós lidamos com ciência, acreditamos em ciência e é o que fazemos.

Rafael Foltram
Ciência Hoje On-line / SP

publicado por profdbio às 19:00
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